O texto mais inútil que você lerá hoje!

Há pouco tempo, em um debate com um jovem da minha igreja sobre fazer faculdade ou não, me peguei novamente argumentando em favor do inútil. Digo novamente, pois nos últimos anos tenho batido nesta tecla em formações para pastores: o que é, de fato, inútil?

O jovem me dizia: “mas para quê eu vou querer perder tempo fazendo faculdade com um monte de matéria que não tem nada a ver, se com o curso técnico rapidinho eu já estou pronto e faço a mesma coisa?” É difícil argumentar contra, afinal o que mais buscamos é, sem dúvida, resultados fáceis e rápidos, e se tem uma coisa que uma boa faculdade não busca ser é ser “fácil” e “rápida”. Respondi da forma como tenho respondido aos (aparentemente) utilitaristas: “escuta, dá uma olhada ali no lado”, apontei para a churrasqueira, onde pingava a gordura de vários espetos com carne), “por que a gente está aqui há quase uma hora virando essa carne se dá pra simplesmente esquentar o feijão e o arroz de hoje de meio dia e comer? Feijão e arroz é útil! Churrasco é inútil!”

Ele tentou contra-argumentar, mas depois que a alcatra mal passada ficou pronta, acho que ele entendeu: a vida não pode ser só baseada em coisas úteis.

Sabe qual o problema? É que estamos equivalendo “útil” a bom, e “inútil” a ruim, quando na verdade, poderíamos definir “útil” como algo bom que nos leva a alguma coisa, e “inútil” como a coisa boa para a qual o útil nos leva. Assim, mais ou menos, definiu Agostinho: que “as [coisas] que são objeto de fruição (frui) fazem-nos felizes. As [coisas] de utilização (uti) ajudam-nos a tender à felicidade e servem de apoio para chegarmos às que nos tornam felizes e nos permitem aderir melhor a elas.” (Agostinho, 2002, I. 3,3)

Nesta distinção entre uti e frui, Agostinho argumenta que algumas coisas são recebidas como meios, enquanto outras são simplesmente desfrutadas. O problema aparece quando levamos a lógica do meio para todas as áreas da vida e passamos a perguntar para que serve cada coisa. Até Deus pode acabar entrando nessa conta: podemos procurar Deus para ter uma vida mais equilibrada, para sermos mais produtivos, para termos sucesso ou para suportarmos melhor as dificuldades. Nesse caso, Deus deixa de ser o nosso bem e passa a ocupar o lugar de uma ferramenta, e a fé se torna mais uma estratégia para chegar a algum lugar.

Para Agostinho, no entanto, o gozo provocado pelo descanso em Deus, que é eterno, imutável, não nos leva a lugar nenhum e que possui fim em si mesmo é a finalidade da vida cristã. Descansar em Deus é frui.

A coisa fica ainda mais interessante quando perguntamos para a Bíblia sobre o motivo do descanso em Deus. Você sabe, o terceiro mandamento é claro em dizer:

“Lembre-se do dia de sábado (sabbath, descanso), para o santificar. Seis dias você trabalhará e fará toda a sua obra, mas o sétimo dia é o sábado dedicado ao Senhor, seu Deus. Não faça nenhum trabalho nesse dia, nem você, nem o seu filho, nem a sua filha, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu animal, nem o estrangeiro das suas portas para dentro.” Êxodo 20.8-10 (NAA)

Descansar em Deus é um mandamento claro, e não é meu propósito aqui explicar o que pode significar esta “descanso” (embora este é um excelente tema para um próximo texto), mas algum jovem utilitarista poderia perguntar: “mas por quê? Por que eu vou perder tempo descansando se eu posso trabalhar um dia a mais e ganhar mais lucro, mais dinheiro. É o ditado: trabalhe enquanto eles descansam!” E nós, como filhos de nossa época que somos, poderíamos contra-argumentar dizendo: “descansar é importante porque nós não somos máquinas, e se não descansarmos, em algum momento vamos estourar. Além disso, ir aos cultos é necessário porque os estudos mostram que ter uma espiritualidade ajuda a sermos bem sucedidos, a termos mais saúde, etc.”

Você que já leu este texto até aqui, já entendeu que tipo de resposta é esta: utilitarista! Descansamos porque o descanso nos traz benefício, lucro, resposta. Mas me permita lhe mostrar como Deus responde a esta pergunta. Em outras palavras, por que descansar em Deus?

“Porque em seis dias o Senhor fez os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia, descansou; por isso o Senhor abençoou o dia de sábado e o santificou.” Êxodo 20.11 (NAA)

Observe que Deus não se preocupa em listar motivos úteis para o descanso, mas se limita a dizer que assim como ele (um ser que, aliás, não se cansa, mas isso é papo para outro texto!), descansou ao sétimo dia, o abençoou e o santificou, assim também suas criaturas devem fazer assim. Ponto. O descanso em Deus não precisa ser avaliado por sua utilidade, e isso é maravilhoso!

É claro que, com o descanso, tudo aquilo que falamos antes vem, mas o ponto é que não é por isso que temos o dia do descanso. Em outras palavras, ainda que descansar em Deus, não desprezar a pregação e a Palavra de Deus, gostar de ouvir e estudá-la não nos trouxesse nada em troca, ainda assim seria um mandamento da parte de Deus.   

O problema certamente não está em fazer coisas úteis, pois a vida é feita das duas coisas: útil e inútil. O problema está em acreditar (e ensinar) que tudo precisa ser útil para ter algum valor. Com este tipo de pensamento, colocamos em xeque, sem perceber, muita coisa central da vida cristã. O descanso, como vimos, é profundamente “inútil” nesse sentido, e justamente por isso é um dos mais belos testemunhos contra a nossa obsessão por produtividade. Em Cristo, podemos finalmente descansar, não porque esse descanso nos levará a algum resultado, mas porque Jesus já fez tudo o que era necessário para nossa salvação. Talvez seja justamente isso que precisamos reaprender: há coisas que não nos levam a lugar algum porque, em Cristo, já chegamos ao lugar para o qual tudo apontava.

Referência:

AGOSTINHO. A Doutrina Cristã – Manual de Exegese e Formação Cristã. Trad.: Ir. Nair de Assis Oliveira. São Paulo: Editora Paulus, 2002.

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