Algumas coisas nem precisam ser ditas para virarem uma espécie de regra não escrita. Ninguém combinou, ninguém votou em uma assembleia ou concílio nacional, ninguém colocou no manual. Mas mesmo assim todo mundo sabe. Entre pregadores, eu penso, uma dessas máximas é: “não olhem para mim, olhem para a Palavra”.
E ela nasce de uma humildade que, de certa maneira, está correta. É a consciência de que o pregador não é o dono do que está dizendo. De que a Escritura que ele proclama não passou a ser verdadeira no momento em que ele abriu a boca.
Mas tem uma história sobre essa humildade que acho que vale o espaço aqui neste artigo.
Terminado o culto, o pastor foi para a porta da igreja cumprimentar os membros. Uma senhora pega na mão dele e diz:
— Que sermão excelente, pastor. Muito obrigada.
E o pastor, com o tom apropriado, responde:
— Não fui eu que disse, irmã. Foi o Espírito Santo.
E a senhora, sem pestanejar:
— Ah, mas não foi para tanto, pastor.
Essa história funciona porque todo mundo reconhece o movimento. Tem uma hora em que o “não fui eu” deixa de descrever o que aconteceu e passa a ser uma pose, e a congregação percebe isso antes do pastor.
Mas eu não quero usar essa história só para implicar com a falsa humildade. Definitivamente não é isso. Quero usá-la para apontar um outro ponto, que a meu ver é bem mais interessante.
No próximo culto em que você pregar, pregador, as pessoas vão continuar olhando para você.
E não é rebeldia do ouvinte. É questão física, porque você está literalmente ali, de pé, na frente, falando. Não tem para onde olhar.
Eu entendo a intenção daquela máxima, e ela é boa. Ela quer dizer que o sermão não se apoia em quem prega. Nisso ela está certíssima. O problema é que ela promete uma coisa que, na verdade, não existe: uma voz sem um corpo. Um sermão que é proclamado sem passar por ninguém. Uma Palavra que chega ao ouvinte limpa de tudo aquilo que é natural demais para nós, como o sotaque, o cansaço da semana, as leituras que aquele pastor fez, o preparo que ele teve e o contexto congregacional em que ele cresceu.
Isso nunca aconteceu, em lugar nenhum, nem uma vez. Deus não fez assim.
Em um artigo anterior escrevi sobre o “como”, sobre retórica, técnica e forma. Aqui eu quero falar do quem.
Dois lados um tanto frágeis
Quando surge a conversa a respeito da pessoa do pregador, é comum ela desaguar em um dos dois lados:
O primeiro é reduzir o pregador ao seu cargo. “Não importa quem ele é, importa que pregue corretamente.” Isso, por um lado, tem um texto confessional forte atrás dele. A Apologia da Confissão de Augsburgo diz que os ministros, quando pregam e administram os sacramentos, representam a pessoa de Cristo e não a sua própria, e cita Lucas 10.16, “quem ouve vocês, ouve a mim” (Ap VII/VIII, 28). É daí que nasce, legitimamente, o “não olhem para mim”. Não é bobagem de pastor humilde… isso é confissão luterana.
O problema, no entanto, não está na Apologia. Está na veloz conclusão que se tira dela. Porque distinguir o ofício da pessoa não é a mesma coisa que dizer que a pessoa desapareceu. Quando a gente faz essa passagem sem parar para pensar um pouquinho, o pastor vira uma espécie de encanamento. A água é boa, mas o cano é irrelevante e ninguém elogia cano.
O segundo lado, portanto, é o extremo oposto. Mas acho que é importante separar duas coisas.
Existe uma versão bastante forte, e é essa que eu quero argumentar contrariamente, que é a de que a identidade de quem fala determina a autoridade daquilo que é dito. Quem viveu tal coisa pode falar de tal coisa. Quem não viveu, não pode. Nesse lado da moeda, deixamos de questionar se algo é verdade ou não, e passamos a nos preocupar com quem está falando aquilo.
Mas existe uma versão bem mais sóbria, e essa eu não só concordo como vou utilizar mais adiante neste artigo, que é o lugar de onde o pregador fala cria pontos cegos naquilo que ele consegue ver e ouvir. E, obviamente, isso não é ideologia. É observação.
O que quero argumentar é que nenhum dos dois extremos funciona. O primeiro precisa fingir que o pregador não está lá. O segundo transforma uma observação verdadeira sobre pontos cegos em um critério de autoridade, e aí o Evangelho deixa de atravessar fronteiras.
O que quero propor aqui é um caminho do meio. E, pesquisando sobre isso, me deparei com uma pesquisa muito interessante.
Embodied Superintendence
A pesquisa, na verdade, é a tese de doutorado do Dr. Dennis Matyas, defendida em 2023 no Concordia Seminary. O título completo é Embodied Superintendence: The Person of the Preacher in Lutheran Homiletics Especially in Relation to Cultural Identity. Vou manter a expressão em inglês, porque toda tradução que tentei perde alguma coisa do conceito. Mas, para a reflexão deste artigo, o que mais me interessa está no meio do título: a pessoa do pregador na homilética luterana.
O argumento de Matyas é um bocado desconfortável. Enquanto boa parte da academia homilética passou décadas discutindo autoridade, diálogo e identidade, nós luteranos respondemos reafirmando a eficácia da Palavra, a proclamação da justificação, Lei e Evangelho, a autoridade do ministério. Nada disso está errado. Eu não trocaria nenhuma dessas coisas.
O problema é que, nesse movimento, fomos falando cada vez menos da pessoa concreta que sobe ao púlpito. E acho que o motivo desse silêncio é justamente o receio de que, ao levarmos a pessoa do pregador a sério, sua personalidade acabasse atropelando a autoridade da Palavra.
É por isso que gosto da palavra “superintendência“. E ela nos ajuda a compreender várias coisas.
“Superintendência”, aqui, não significa apenas o cargo administrativo que a palavra sugere. Matyas parte de uma definição de que quem superintende administra algo que pertence a outro e, por isso, é menor do que aquilo que administra. Um superintendente de escolas não é dono da rede. A rede poderia existir sem ele, mas ele, como superintendente, não existiria sem a rede.
Com o pregador acontece algo parecido. A Palavra não pertence a ele. Ela o precede e é maior do que ele.
Mas Matyas desenvolve o conceito a partir do filósofo Nicholas Wolterstorff, e aí “superintendência” ganha um sentido ainda mais específico: a margem de ação concedida a alguém autorizado a falar em nome de outro.
Eu explico.
Numa ponta está a carta ditada. Um secretário escreve exatamente o que foi dito a ele. Sua liberdade é mínima e a fidelidade pode ser medida palavra por palavra. Na outra ponta está o embaixador. Ele fala em nome de quem o enviou, mas com palavras próprias e diante de situações que o remetente nem precisou prever de antemão. Quanto maior essa liberdade, mais importante se torna que o enviado conheça a mente de quem o enviou.
O pregador está muito mais perto dessa segunda ponta.
A autoridade da Palavra não nasce dele. Ela o precede e, justamente por isso, o envia (Rm 10.14-15). Mas quem prega não recebeu simplesmente um texto para recitar. Recebeu autoridade e responsabilidade para falar em nome de outro.
E “embaixador” não é uma metáfora minha. É a palavra que o próprio apóstolo Paulo usa em 2Coríntios 5.20, quando diz que somos embaixadores em nome de Cristo. Ou seja: Deus não ditou o seu sermão. Ele te credenciou.
Só que credencial não é carta branca. Nenhum embaixador inventa a política externa do país que representa. A margem do pregador é delimitada pelo texto que ele prega, pela confissão da igreja que o enviou e pelo conteúdo que Paulo nomeia ali mesmo, duas linhas antes: a mensagem da reconciliação. Dentro disso, liberdade de sobra. Fora disso, ele deixou de ser embaixador e virou outra coisa.
Isso significa, por um lado, mais liberdade e, por outro, muito mais responsabilidade. E eu tendo a entender isso como um péssimo negócio para quem gosta de dormir tranquilo.
Uma distinção fundamental
Aqui está o coração da coisa.
Matyas diz que a pessoa do pregador é fundacional para a homilética luterana. Ou seja, a pessoa do pregador não é um acessório, tampouco um detalhe de execução. É uma questão estrutural. Deus podia ter escolhido anjos, sonhos, livros caindo do céu. Mas Ele escolheu gente.
Convém dizer que, o que Cristo instituiu foi o ofício da pregação, não a biografia de nenhum pastor (CA V e XIV). Nenhum de nós é insubstituível. Se eu adoecer no sábado, outro sobe ali no domingo e entrega exatamente o mesmo perdão. O que é estrutural não é a minha pessoa, é o fato de que sempre haverá uma pessoa.
A Apologia volta aqui neste ponto e nos ajuda bastante. Dizer que o pregador representa a pessoa de Cristo, e não a própria, não faz a pessoa dele evaporar, mas coloca essa pessoa no lugar certo. Ela não é a fonte da autoridade, e justamente por isso pode ser olhada sem medo de que roube alguma coisa da Palavra.
O que não é fundacional é a identidade cultural desse indivíduo. Não existe, nem no Novo Testamento nem nas nossas confissões, nenhum pré-requisito étnico, linguístico ou social para pregar. Os critérios de 1Timóteo 3 e Tito 1 falam de aptidão para ensinar, caráter, maturidade na fé.
Contudo (e essa parte aqui é interessantíssima) a identidade cultural do pregador é formacional. Ou seja, ela não funda a autoridade da Palavra, mas molda os contornos do sujeito por meio de quem essa Palavra é dita.
O fato de você ser gaúcho, filho de operário, criado no interior ou formado em colégio particular caro não torna o Evangelho mais ou menos verdadeiro. Mas influencia qual ilustração te ocorre às terças-feiras, quando você lê o texto pela primeira vez, e qual palavra soa dura no seu ouvido ou macia no ouvido do outro. Isso também molda qual pecado você enxerga primeiro e qual você custa a enxergar, além de quem você lembra quando pensa “no povo”.
Isso, caro leitor, não é uma espécie de “contaminação” à Palavra. É o simples fato de que Deus decidiu fazer a sua Palavra soar por vozes humanas concretas, e toda voz vem de algum lugar.
Agostinho já tinha complicado isso
No Livro IV de A Doutrina Cristã, Agostinho primeiramente defende o pregador de vida ruim. Um homem pode falar com sabedoria e eloquência vivendo uma vida desprezível e, ainda assim, instruir muita gente (mesmo sendo, como diz a Escritura, inútil para a própria alma). Ele apoia isso em Filipenses 1.18 e lembra que Jesus mandou fazer o que os fariseus dizem e não o que eles fazem, porque eles se assentavam na cadeira de Moisés (Mt 23.2-3). A cadeira não era deles. Era ela que os obrigava a dizer coisas boas mesmo não as fazendo.
Ou seja, a eficácia da Palavra não está pendurada na santidade de quem a prega. Isso é puro conforto… mas é conforto para o ouvinte e não para o pastor.
Porque logo em seguida Agostinho dá uma virada na mesa.
Ele diz que essas pessoas beneficiam muitos ao dizer o que não fazem, mas beneficiariam muito mais fazendo o que dizem. E aí ele diz que as pessoas procuram desculpa para a própria vida ruim na vida ruim dos seus líderes (talvez você, pregador, já tenha ouvido algo assim). Elas respondem no coração, ou na cara mesmo: “por que você não faz o que você está mandando eu fazer?”. E assim não dão ouvidos a quem não dá ouvidos a si mesmo, e acabam desprezando a Palavra junto com o pregador.
Pare e observe que Agostinho está trabalhando com duas coisinhas diferentes, e a confusão entre elas é a fonte de quase toda bobagem nessa área:
- a eficácia da Palavra, que não depende de mim;
- a disposição do ouvinte, que pode ser profundamente afetada por mim.
A primeira é doutrina. A segunda é vida real. O ouvinte pode resistir à Palavra, desprezá-la e se afastar dela. A própria Fórmula de Concórdia chega a dizer, falando estritamente de coisas externas, que mesmo a pessoa não convertida “pode ir à igreja e dar ou não ouvidos à pregação” (DS II, §53). Não se trata de nenhuma centelha de capacidade espiritual… bom, a Fórmula acabou de negar isso com todas as letras. Trata-se do cenário concreto em que a Palavra é ouvida ou ignorada. E a vida do pastor pode se tornar uma ocasião terrível para essa resistência.
Três lugares onde a pessoa do pregador entra no sermão
O Dr. Matyas atgumenta claramente que a pessoa do pregador atua diretamente em três pontos: estudo e preparação, caráter e personalidade.
Estudo e preparação. Quando vai estudar para escrever, o pastor estuda com pessoas na cabeça, e são essas pessoas que tornam alguns assuntos importantes e outros nem tanto. Löhe argumenta que o pastor deve manter as línguas originais justamente porque quem trabalha só com traduções está sempre a um passo de distância daquilo que vai pregar. E Lutero, no prefácio do Catecismo Maior, não tem nenhuma delicadeza com quem deixa o trabalho de estudar o texto de lado. Ele chama o pastor preguiçoso de servo da própria barriga e diz que seria mais bem aproveitado cuidando de porcos e cachorros do que de almas.
Caráter. Agostinho já fez boa parte do trabalho ali em cima, mas vale registrar que essa preocupação aparece até em quem a gente costuma citar mais para condenar do que para ouvir. Spener, em Pia Desideria, argumenta que quem não tem fé verdadeira dificilmente exercerá como deve o ofício de despertar fé nos outros. Dá para discordar do remédio… mas o diagnóstico não é absurdo.
Personalidade. Löhe, em O Pastor, implica especialmente com o pregador que imita outro sem levar em conta o próprio jeito de falar. Ele também fala daqueles que tem um “tom de púlpito”. É aquele jeito mais artificial e meio forçado de falar que todo mundo reconhece que existe, mas ninguém admite tenha. Por isso ele diz que o pregador precisa de um amigo honesto, que tenham coragem de apontar essas coisas. Porque há defeitos na nossa maneira de falar e pregar que a gente simplesmente não consegue perceber sozinho.
Carl Walther quer a mesma coisa que Löhe: uma personalidade autêntica no púlpito. E ele vai um pouquinho adiante ao comentar Apocalipse 3.15-16, nas conferências que viraram A Correra distinção entre Lei e Evangelho. Ele diz que, no juízo de Deus, é pior ser um ministro morno do que frio. Pior ser preguiçoso e indiferente, tocando o ministério como quem apenas exerce uma profissão, do que ser manifestamente ímpio.
Isso aqui, temos que ser honestos, é forte. Diante do pastor escandaloso, as pessoas percebem o problema e se afastam. Diante do pastor sonolento, elas podem simplesmente adormecer junto com ele.
Ou seja… por mais difícil que seja escrever isso (e, admito, ainda mais difícil ler), o pastor chato não é “café com leite”. Ele está fazendo alguma coisa. Só que talvez não seja a coisa que imagina estar fazendo.
O que o seu mundo te deixa ver
Tem um exemplo no famoso artigo do Dr. David Schmitt, A tapeçaria da pregação, que para mim é a demonstração mais concreta do que significa “formacional”.
Ele conta que, depois de uns sete anos corrigindo sermões de alunos, com uma média de 150 sermões a cada dez semanas, leu um sermão em que o aluno descrevia um pai cumprindo sua vocação de pai cristão, ainda que só ficasse com os filhos nos fins de semana. Aquilo, para ele, chamou muito a atenção. Foi a primeira vez em sete anos que ele viu uma ilustração tratando um pai divorciado como cristão.
Pensa, rapidamente, no que isso significa. Obviamente os outros não estavam escrevendo alguma heresia. Mas aquilo mostrou uma ausência. Durante sete anos, dezenas de pregadores simplesmente não enxergaram aquela pessoa, provavelmente porque ela não estava no mundo deles.
É isso que a identidade cultural do pregador faz. Ela não corrompe a Palavra. Ela influencia quem aparece na ilustração e quem desaparece. E repare: é exatamente aquela versão sóbria do segundo lado, a que eu disse lá atrás que ia usar. Reconhecer pontos cegos não entrega a autoridade da pregação para a identidade de ninguém. Só nos lembra que ninguém prega de lugar nenhum.
O Dr. Peter Nafzger, em “The Preacher as Worldmaker”, descreve a pregação como worldmaking, a construção de um mundo. Ele argumenta que toda vez que pregamos, desmontamos versões falsas do mundo e anunciamos o mundo como ele de fato é. E acrescenta que exegetar a cultura é tão importante quanto exegetar a Escritura.
E é por isso que o seu sotaque, a sua particularidade, pregador… importa. Não é uma credencial, mas é uma lente.
Então, de novo: por que o pregador é importante?
Chegamos de volta à pergunta do título. Se a Palavra é eficaz por si mesma, se ela não fica mais verdadeira porque eu sou bom nem menos verdadeira porque eu sou ruim, então o que exatamente eu estou fazendo ali em cima?
Eu diria que a resposta começa com uma analogia com a água do Batismo. Mas, deixo avisado que como toda analogia, ela só anda até certo ponto. A água é um elemento instituído, com mandato e promessa presos a ela. Nenhum pregador é isso. O que a analogia abaixo ilustra é só a lógica do instrumento.
A água, separada da Palavra e da instituição de Cristo, é apenas água. Mas Deus decidiu ligar a sua promessa àquela água, naquela pia, e por isso ela não é descartável. Tirar a água para ficar só com a “parte espiritual” não deixa o Batismo mais puro. Acaba com ele.
Com o pregador acontece algo parecido. Ele não é a fonte da eficácia da Palavra. Ele é o instrumento humano chamado e enviado para entregar aquilo que não lhe pertence.
Paulo diz que temos esse tesouro em vasos de barro, e a gente costuma ler isso como uma espécie de pedido de desculpas. Mas não é. O argumento dele é que o barro é visível de propósito, para que fique claro de quem é a excelência do poder. A fragilidade não é um defeito tolerado pelo Evangelho. A fragilidade faz parte do jeito como o Evangelho se apresenta.
Três coisas para recusar
Duas delas você já viu no começo do artigo e a terceira é a que eu guardei para o final.
Primeiro: o pastor-personalidade
É o que acontece quando a pessoa do pregador deixa de ser o vaso e passa a ser o conteúdo. A autenticidade vira uma espécie de produto e a vulnerabilidade vira técnica. O sermão passa a ser sobre a jornada do pregador, com uma participação especial de Jesus no terceiro ato.
Para detectar isso, tem um teste bem simples: se você tirar o seu nome do sermão, ele continua pregando Cristo? E, ao contrário: se você tirar Cristo, o sermão continua funcionando como conteúdo interessante? Se a segunda resposta for sim, a gente tem um problema.
Segundo: a identidade como credencial
É a ideia de que o pregador só pode pregar sobre determinada dor se ele já carregou aquela dor.
Matyas responde a isso argumentando que, se a exigência for que o pregador fale a partir da experiência exata do ouvinte, ele está sendo cobrado a falar uma língua que não sabe. O trecho seguinte é uma paráfrase bem próxima do que ele escreve, e vale a pena porque ele diz isso melhor do que eu diria:
Só Um conhece as duas margens, e foi por isso que Ele veio. O pregador não oferece um retrato exato do ouvinte dentro de si mesmo. Ele oferece um testemunho: eu não sei o que é sofrer exatamente como você, mas eu conheço sofrimento. A sua língua não é a minha, e a minha não é a sua, e nos dois corações entrou a mesma esperança, porque Cristo carregou o sofrimento, a pele e a língua de todos nós.
Se a identidade fosse algo fundacional, o Evangelho não teria saído de Jerusalém.
Terceiro: a falsa humildade
Essa é a nossa favorita, e é a mais difícil de acusar, porque ela até usa um vocabulário correto. É aqui que volta a senhora da porta da igreja.
“Não importa quem eu sou, importa a Palavra” pode ser uma confissão. Mas também pode ser uma espécie de blindagem. Quem afirma que a própria pessoa é irrelevante está, com frequência, pedindo para não ser cobrado… talvez pela falta de preparo para o sermão, pelo caráter que não foi devidamente cuidado ou pelo tom que machucou alguém.
A doutrina dos meios da graça protege o ouvinte da minha indignidade. Ela não transforma a minha preguiça em virtude.
Tá… mas e quando a vida do pastor desmente o sermão?
Precisamos dizer isso com todas as letras, porque todas as congregações já passaram por isso. Afinal de contas, todos os pregadores são pecadores.
1º – Quando um pastor cai diante de um pecado escandaloso, muitas vezes alguém pode se questionar: “quer dizer, então, que tudo aquilo era mentira? O batismo que ele fez valeu? O perdão que ele anunciou valeu?”. A resposta de Agostinho é sim, valeu. O perdão anunciado era de Cristo, e continua sendo. Você não foi enganado a respeito de Jesus. Mas repare para quem essa resposta serve. Ela é consolo para quem ouviu. Ela nunca foi escudo para quem falou. Agostinho dá o conforto ao ouvinte com uma mão e, com a outra, diz que o pregador de vida ruim fala palavras que não lhe pertencem.
2º – Mas há o outro lado da moeda, que é onde está a maior parte dos pregadores. Não estamos falando de escândalos, mas da distância cotidiana entre o que eu prego e o que eu sou. Eu prego paciência tendo perdido a paciência no trânsito, na sexta à noite, voltando para casa depois da última visita do dia. Prego confiança tendo passado a madrugada com medo de não ter dinheiro para pagar as contas do final do mês.
Aqui a única saída é a que vale para todo mundo: o pregador é, antes de tudo, um ouvinte. Ele não anuncia a graça como quem já chegou no alvo. Ele anuncia como quem recebeu, e está precisando de novo dela… e sabe onde ela fica.
O corpo é parte do plano
Deus podia ter feito de outro jeito, é claro. Ele podia ter mandado um anjo, como Agostinho lembra ao comentar Cornélio, mas Ele mandou Pedro. Deus podia ter explicado Isaías direto na cabeça do etíope, mas mandou Filipe sentar no carro.
Deus insiste em fazer isso por meio de gente. E gente de verdade tem corpo, sotaque, memórias, classe social, hábitos, pecados… e é perdoada. Não dá para pedir que a Palavra seja proclamada sem pedir também a voz que a carrega.
“Não olhem para mim, olhem para a Palavra.”
Eu entendo. Mas quem sabe podemos carregar isso em nossas mentes:
Olhem para mim o quanto for inevitável. Eu sou apenas o vaso chamado a carregar o tesouro. Mas não parem no vaso. O tesouro não me pertence. E é justamente porque ele não é meu que eu não tenho o direito de tratar com descuido nem o tesouro nem o vaso que o carrega.
