Se você, assim como eu, sempre viu a resposta de Jesus à pergunta dos discípulos dos fariseus (i.e., “Deem, pois, a César o que é de César…”), como uma resposta real, leia este texto!
No grupo de jovens da igreja em que atuo, geralmente nos encontramos aos domingos para um estudo bíblico e, depois, comunhão. Nestes momentos de comunhão, temos jogado um jogo que pode ter vários nomes, mas aqui chamamos de “quem sou eu?”. É simples, fazemos um círculo e cada pessoa escreve um nome num post-it e cola na testa da pessoa ao lado. O negócio do jogo é descobrir o nome que a pessoa colocou na sua testa a partir de perguntas de sim ou não.
“Eu sou um homem?”
“Eu sou da nossa comunidade?”
“Eu uso talar na hora do culto?”
E assim vai indo.
O grande problema (e, francamente, a graça do jogo) é que nem sempre as perguntas de “sim” ou “não” ajudam. Imagine que você recebeu um post-it com a palavra “Jesus” e você pergunta:
“Eu estou morto?”
O grupo irá responder:
“Não.”
A resposta está certíssima! Ele ressuscitou de fato (Aleluia!). No entanto, esta pergunta iria mais te confundir do que te ajudar na descoberta do nome. É aí que a gente fala uma frase:
“PERGUNTA ERRADA, RESPOSTA ERRADA!”
Há algum tempo, me peguei estudando os comentários do professor do Concordia Seminary de St. Louis, Dr. Jeffrey Gibbs sobre Mateus 22.15-22, aquela famosa passagem em que os discípulos dos fariseus são enviados até Jesus na intenção de pegá-lo em uma “emboscada teológica/política”, perguntando-o sobre os impostos, ao que Jesus responde a famosa frase: “Deem, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22.21), lembra?
Até então, sempre encarei esta passagem como sendo uma resposta autêntica de Jesus para a questão da relação entre o reino da mão direita e o reino da mão esquerda, aquela doutrina bíblica na qual Deus governa o mundo por dois âmbitos: pelo reino da mão direita (pelo Evangelho, para conceder perdão e salvação em Cristo); e pelo reino da mão esquerda (por meio das autoridades e da ordem civil, para preservar a criação e conter o mal). E só por este parágrafo que eu escrevi agora, imagino que você esteja pensando: “ué, mas não é?!”
Gibbs argumenta que não! Embora ele não negue que esta possa ser um texto usado para dar suporte a esta doutrina, Gibbs sugere que esta não é a intenção do texto, pelo menos não esta primeira parte, “Deem, pois, a César o que é de César…”. E, na verdade, o contexto suporta esta sugestão!
Jesus está em Jerusalém e, desde o capítulo 21 já vem sendo confrontado. Em Mateus 21.15-16, os principais sacerdotes e os escribas ficam indignados com as maravilhas de Jesus e a confissão das crianças (“Hosana ao filho de Davi”), eles “perguntam” a Jesus: “Você está ouvindo o que estão dizendo?”. Mais tarde, em Mateus 21.23, os principais sacerdotes e os anciãos do templo veem Jesus pregar e desafiam a sua autoridade “perguntando”: “Com que autoridade você faz estas coisas? E quem lhe deu esta autoridade?”. Jesus conta então três indiretas parábolas e os fariseus acusam o golpe e se retiram na intenção de armar um plano.
Agora, em Mateus 22.15-22, os fariseus enviam os seus discípulos a “perguntarem”:
“Mestre, sabemos que o senhor é verdadeiro e que ensina o caminho de Deus de acordo com a verdade, sem se importar com a opinião dos outros, porque não olha para a aparência das pessoas. Assim sendo, diga-nos o que o senhor acha: é lícito pagar imposto a César ou não?” (Mt 22.16b-17)
Talvez você deve estar se perguntando o motivo de eu ter colocado entre parêntesis e itálico todas as “perguntas” daquela gente. Aí é que mora, justamente, o argumento de Gibbs: é que, pelo contexto, vemos que nenhuma dessas perguntas feitas pelos principais sacerdotes, escribas, anciãos e fariseus (através dos seus discípulos) era, de fato, uma pergunta real. Todas as perguntas deles eram, ou afirmações ou armações. Nenhuma dessas perguntas foram perguntas de verdade.
É por isso que Gibbs afirma que a primeira parte da resposta de Jesus (“Deem, pois, a César o que é de César”) para a pergunta em Mateus 22.16b-17 não foi uma resposta real. Ou, em termos da juventude da qual sou o pastor: PERGUNTA ERRADA, RESPOSTA ERRADA.
Nas palavras de Gibbs: “o que eu estou sugerindo aqui é que “deem, pois, a César o que é de César” é um tipo de “não-resposta” a uma ‘pergunta’ que não merece uma resposta. Além disso, a mensagem real das palavras de Jesus é o desafio ‘e a Deus o que é de Deus.’”[1]
Por isso, tudo indica que a primeira parte da resposta de Jesus trata-se realmente de uma resposta à provocação dos fariseus e não propriamente à sua pergunta. Até porque, se levamos em conta as duas partes da respostas de Jesus como igualmente literais, podemos nos questionar: será que Jesus estaria ensinando que existem coisas que são de César, mas que não são de Deus? Há algo que Deus não seja o proprietário? Há alguma parte da existência que Deus não esteja no comando?
PERGUNTA ERRADA, RESPOSTA ERRADA.
Tá, então qual seria o ponto desta passagem? Qual seria a resposta certa para a pergunta certa? A segunda parte da resposta de Jesus é o bife do nosso texto, “e a Deus o que é de Deus.” Jesus está dizendo aos discípulos dos fariseus (e, na verdade, à todo o povo que está o escutando) que eles devem dar de volta, restituir o que é devido a Deus, ou, em outras palavras: fazer a vontade do Pai que, segundo Gibbs, é:
“arrepender-se e crer (…). Dar a Deus o que pertence a Deus é contemplar o homem que está no meio deles, saber de quem ele é verdadeiramente Filho, e segui-lo, porque nele o reinado de Deus se aproximou. Dar a Deus o que é de Deus é arrepender-se e seguir o seu Filho em um discipulado que confia nele e lhe obedece.”[2]
Agora sim: resposta certa para a pergunta certa!
Referências:
[1] GIBBS, Jeffrey A. Matthew 21:1–28:20. St. Louis: Concordia Publishing House, 2018. (Concordia Commentary). P. 1119. Tradução minha.
[2] Idem, p. 1126. Tradução minha.
