Nota: esse texto apareceu inicialmente no Cristão na Mídia há alguns anos atrás.
Deus está morto. Friedrich Nietzsche afirmou esta famosa frase em seu livro A Gaia Ciência em 1887 no conhecido conto do “homem louco.” Mas, o que essa frase significa?
Há muito desentendimento sobre o que se refere essa famosa frase do filósofo alemão. Embora muitas pessoas pensem que essa frase de Nietzsche é um convite para negar a existência de Deus, não é isso que essa famosa frase significa.
Nietzche estava observando uma mudança drástica na estrutura da sociedade moderna da sua época. Ao dizer que Deus estava morto, Nietzsche estava observando que o papel e a função que o Deus do Cristianismo ocupava na sociedade até o século XVI já não era mais ocupado por Deus. Ele tinha plena consciência que Deus era mais do que um ser que ocupava os pensamentos de pessoas religiosas. Ele sabia que Deus era visto como o Criador, o ser supremo que dava significado e propósito para a vida de todos e tudo na sociedade.
No entanto, com o desenvolvimento da idade moderna—principalmente depois do Iluminismo—o ser humano passa a ocupar o centro das atenções, especialmente por causa da ênfase no “indivíduo”. Ao invés da vontade divina, a razão passa a ser o que define se algo é bom ou ruim na sociedade moderna. Deus passa a governar apenas o “mundo metafísico”—isto é, o mundo da religião—enquanto o ser humano governa o mundo material através da razão.
Quando chegamos na época em que Nietzsche escreveu sobre a morte de Deus, a sociedade ocidental já havia mudado completamente em comparação a cultura que existia na Idade Média. Deus passa a ser o “Deus do indivíduo” ao invés do Senhor e Criador de todo o universo.
Uma ilustração é o que ainda hoje é possível ser observado em meio a cristãos. Quando perguntados sobre “quem é Deus?” muitos cristãos respondem que ele é o ser que provê apoio e ajuda sempre que eles necessitam. Em outras palavras, Deus deixa de ser o Governador e Mantenedor do universo para ser um “bom camarada”, alguém que você pede ajuda para conseguir superar os problemas da sua vida, ou para conseguir uma promoção no trabalho, etc.
Isso é reflexo de que “Deus” já não é mais Deus como era antigamente. Ele passa a ser um ser que está no mesmo nível que nós seres humanos, só que mais legal e compreensível. Nesse sentido, o Deus confessado desde o início da Igreja Cristã até o século XVI é assassinado pelo indivíduo moderno. Nos termos de Nietzsche, “Deus está morto, e nós o matamos.”
Isso significa que a frase de Nietzsche não é um convite para negar a existência de Deus e abraçar o ateísmo. Diferentemente daquilo que é mostrado no filme “Deus não está morto,” o centro da afirmação feita por Nietzsche não é que Deus não existe. Embora fosse um ateu convicto e tenha afirmado que a melhor coisa que poderia ser feita em favor do ser humano era se livrar da fé em Deus, Nietzsche estava mais que tudo observando que a sociedade moderna havia matado o Deus do Cristianismo reduzindo-o a um mero ser que existe para satisfazer o indivíduo que crê nele.
O resultado é, portanto, que “Deus” já não é o Deus Criador que governa, mantém, e dá propósito para tudo e todos no mundo moderno. Ou seja, “Deus está morto.”
Isso significa que não precisamos ficar na defensiva diante da frase, “Deus está morto.” Como cristãos, nós podemos—de fato, devemos—concordar com a frase e observação de Nietzsche. Isto porque negar a observação feita por esse filósofo é simplesmente negar a realidade que temos no mundo desde o fim do século XIX.
Reflita sobre a sociedade atual e você perceberá que Nietzsche estava certo em sua observação. A sociedade não considera mais Deus como o ser que dá significado e propósito para a vida dos membros dessa sociedade. Por exemplo, leis são outorgadas e aplicadas na sociedade sem conexão alguma com a vontade de Deus—tanto por cristãos como também por não-cristãos. Isso porque o entendimento de bom e mal não considera o que Deus revela ser bom e mal para sua criação. Mesmo em meio a cristãos percebe-se que o ser que governa e orienta a vida do homem moderno não é Deus e a revelação divina mas sim aquilo que os seres humanos consideram ser o melhor para eles próprios.
Portanto, a melhor resposta para Nietzsche não é afirmar que “Deus não está morto.” Tal afirmação demonstra desconhecimento e ignorância em relação a observação feita por Nietzsche, bem como uma falha em entender a situação e o contexto atuais.
Qual é a melhor resposta? A resposta e postura que cristãos precisam assumir diante da observação que Deus está morto é pensar em como continuar fiéis a sua confissão de fé e pregar a Palavra de Deus de uma maneira entendível e relevante para uma sociedade influenciada pela ausência de Deus.
O desafio dado por Nietzsche não é “como provar que Deus não está morto” mas sim “como pregar e proclamar o Evangelho para uma sociedade em que claramente Deus está morto.” Nesse sentido, Nietzsche se torna um aliado, pois seus escritos observam muito bem o mundo em que vivemos, e oferecem uma imagem clara do que podemos encontrar na sociedade moderna.
Entendendo corretamente o que Nietzsche afirmou com a frase “Deus está morto”, portanto, permite que cristãos concordem com a observação desse filósofo, uma vez que ele ajuda os cristãos a entenderem melhor a mudança que ocorreu na sociedade ocidental. Além disso, ele oferece uma boa descrição do desafio que é pregar o Evangelho hoje em dia.
Isto não quer dizer, no entanto, que ao concordar com Nietzsche que “Deus está morto” nós estamos negando a ressurreição de Cristo ou mesmo que Deus não existe. De forma alguma! O que isso quer dizer é que entendemos a sociedade que vivemos, a qual não é mais a sociedade do século XVI que por sua vez era completamente influenciada por valores cristãos. E, entendendo o mundo e sociedade que vivemos, podemos nos preparar melhor para a missão de pregar e anunciar o Evangelho de Cristo, o qual vive e reina hoje e sempre.
Somente quando nós como igreja formos capazes de reconhecer o desafio que está diante de nós e encarar a realidade que nós enfrentamos atualmente é que poderemos considerar meios e ferramentas para responder de forma correta e fiel ao chamado de anunciar o Deus que criou, redimiu e santificou a sua criação. Que ele nos conceda sensatez e conhecimento para esse desafio.
