O que a IA não pode fazer não é exatamente o que você pensa

Eu li esta semana uma reportagem da revista The Economist com o título “AI is changing religion and religions are trying to change AI” (A inteligência artificial está mudando a religião, e as religiões estão tentando mudar a inteligência artificial) (link). É um texto bem bacana. Bem apurado e, definitivamente, sem aquele tom apocalíptico que se costuma ter em textos que juntam as palavras “fé” e “algoritmo”. Vale a leitura.

Mas teve um trecho que me fez refletir um bocado.

A reportagem observa que pessoas que procuram a IA porque a vida perdeu o sentido acabam sendo mandadas para conteúdo de autoajuda em vez de serem encaminhadas para um imã, um padre ou um rabino – um líder religioso.

Quase todo mundo vai ler isso como denúncia: “Como assim? A IA quer dominar até o aconselhamento religioso? Isso é coisa do diabo!”

Alguém pode argumentar que a máquina errou o encaminhamento. Ela deveria ter mandado a pessoa para um pastor e mandou para o vídeo motivacional.

O que eu quero fazer com esse texto é te apresentar a forma como eu li isso. Eu li e pensei: isso aqui até pode fazer sentido… mas só se pastor e livro de autoajuda dividirem a mesma prateleira.

E é aí que está o problema do texto inteiro. Não no que ele responde, mas no que ele precisa pressupor para conseguir ter uma premissa para argumentar.

Uma resposta escondida dentro de uma pergunta

O subtítulo da matéria pergunta se os chatbots vão suplantar o conselho de imãs e sacerdotes, ou se vão ajudá-los a divulgar a mensagem.

Repare no verbo: suplantar. Para uma coisa suplantar outra, as duas precisam ocupar o mesmo lugar.

E o pulo do gato está justamente aí, porque o caso não é tão óbvio quanto parece. Ninguém pergunta se a fotografia de um jantar vai suplantar o jantar, mesmo a foto é ótima, e, obviamente, sendo do jantar. Ninguém pergunta se o vídeo do casamento suplanta o casamento, mesmo que o vídeo tenha as mesmas palavras, os mesmos rostos e a mesma trilha sonora.

Só que quando o assunto é conselho espiritual, a gente aceita a comparação. Mas por quê? Porque a pergunta já traz uma resposta embutida dentro dela: a de que o ministério pastoral e o chatbot disputam a mesma vaga. A vaga de quem fornece orientação existencial ao ser humano moderno.

E essa é uma ideia antiga. A reportagem não a assume, não a declara e provavelmente nem pensou nela, mas é essa ideia que sustenta tudo. Clifford Geertz, em A interpretação das culturas, define religião como “um sistema de símbolos que atua para estabelecer poderosas, penetrantes e duradouras disposições e motivações nos homens através da formulação de conceitos de uma ordem de existência geral e vestindo essas concepções com tal aura de fatualidade que as disposições e motivações parecem singularmente realistas“.

O próprio Geertz é bastante sincero sobre o que ele está fazendo. Ele afirma, na mesma página, que definições em si nada estabelecem, mas servem para orientar o pensamento e controlar uma linha de pesquisa. É uma ferramenta de trabalho, assumida como tal.

Como ferramenta de análise, funciona muito bem. O problema aparece quando a ferramenta de um antropólogo vira o quadro geral dentro do qual a gente passa a sentir a própria angústia.

Porque se a igreja é, essencialmente, uma fornecedora de sentido e de conselho, então qualquer coisa que forneça sentido e conselho é concorrente. E aí a preocupação por trás da reportagem faz todo sentido, e a solução também: construir chatbots religiosos melhores, colocar “arreios teológicos” nos modelos, disputar a mesma prateleira com um produto melhor.

Só que em nenhum momento, em nenhum parágrafo, alguém pergunta se a IA, por exemplo, vai substituir a Santa Ceia.

E não perguntam porque a pergunta é absurda. Não há nada para substituir ali.

A palavra tem que vir de fora

Estou pregando alguns sermões em Romanos na Congregação São Lucas, onde sirvo como pastor, e não deu para ler essa reportagem sem lembrar do capítulo 10.

Paulo monta uma corrente: “Como, então, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouvirão se não houver quem pregue? E como pregarão se não forem enviados?“

E então ele conclui: “Consequentemente, a fé vem pelo ouvir, e ouvir a palavra de Cristo.“

Isso aqui não é un figura de linguagem. É uma estrutura: enviado, prega, ouve, crê. Tire o enviado e a corrente inteira cai no chão.

O Dr. Joel Okamoto, num ensaio sobre o Ofício do Santo Ministério, lê essa passagem assim: “não há justiça de vida sem fé, não há fé sem ouvir, não há ouvir sem pregadores, e não há pregadores sem envio. Dessa forma, Paulo situa o ministério da Palavra e o ofício desse ministério no contexto da justificação pela fé no Evangelho.“

Repare onde ele coloca o ministério. Não no capítulo sobre organização da igreja, mas no artigo da justificação. O ministério não é um penduricalho administrativo. É parte do modo como Deus salva.

A Confissão de Augsburgo diz a mesma coisa no artigo V: “Para que se obtenha essa fé, Deus instituiu o ministério da pregação, deu evangelho e sacramentos, que são meios pelos quais age o Espírito Santo, consolando os corações e operando a fé onde e quando lhe apraz, naqueles que ouvem o evangelho.“

Leia de novo essa última parte. Naqueles que ouvem. Não naqueles que refletem, procuram ou pesquisam.

E o artigo não termina por aí. Ele conclui condenando os anabatistas e outros que “ensinam que merecemos o Espírito Santo mediante preparação e obras próprias, sem a palavra física do evangelho“.

Palavra física. É essa a expressão que a Confissão usa. A Palavra que sai de uma boca, atravessa o ar e chega no ouvido.

Os Artigos de Esmalcalde detalham por quais caminhos isso acontece: “Primeiro, mediante a palavra falada, em que é pregada remissão de pecados em todo o mundo. Esse é o ofício próprio do evangelho. Em segundo lugar, pelo batismo; em terceiro, pelo santo sacramento do altar; em quarto, mediante o poder das chaves e, também, per mutuum coloquium et consolationem fratrum” (por meio de mútuo colóquio e consolação dos irmãos).

Da uma olhadinha nessa lista: palavra falada, água, pão e vinho, chaves, conversa entre irmãos.

Todos externos. Todos mediados. Nenhum deles nasce dentro de mim.

E é claro, caro leitor, que não quero que isso seja visto como uma espécie de preciosismo ou algo assim. É uma declaração sobre o que é o coração humano. Ainda nos Artigos de Esmalcalde, Lutero diz que “a razão cega tateia insegura nas coisas de Deus, procurando consolo em suas próprias obras, segundo a sua opinião subjetiva, incapaz de pensar em Cristo ou na fé“.

Pensa comigo: às três da manhã, depois de um dia muito duro, o meu coração me informa de forma muito clara que Deus me abandonou. Ele é bastante convincente. E ele está errado. Eu não sou um narrador confiável da disposição de Deus para comigo.

Bonhoeffer escreveu isso melhor do que ninguém, em Vida em Comunhão: “Por isso o cristão precisa de outro cristão que lhe fale a Palavra de Deus. Precisa dele de novo e de novo, sempre que se torna incerto e desanimado, porque sozinho não consegue ajudar a si mesmo sem falsear a verdade. (…) O Cristo no seu próprio coração é mais fraco que o Cristo na palavra do seu irmão; o próprio coração é incerto, o do irmão é seguro.“

Agora me responde: de onde vem a palavra do chatbot?

Ela vem do meu prompt. É gerada em resposta a mim, ajustada a mim, moldada pelo que eu digitei e pelo que eu gostei de ler nas mensagens anteriores. A reportagem cita Waleed Kadous dizendo que os modelos são bajuladores e voltados para o usuário em vez de para a comunidade. Ele está certo, mas o diagnóstico é, ao meu ver, um cadinho mais profundo.

O chatbot é a palavra mais interna que já se inventou. É o eco da minha própria pergunta, com uma gramática muito melhor que a minha.

Um martelo não é bajulador

Aqui está, talvez, ponto mais importante do texto, e é onde a reportagem chega mais perto do problema sem enxerga-lo completamente.

Audrey Tang, ex-ministra de Taiwan, aparece dizendo que os modelos são otimizados para conforto de curto prazo. Uma monja budista, Juewei Shi, diz que teme por pessoas que não vão saber lidar com o sofrimento porque se acostumaram ao consolo artificial.

Os dois estão certos. E do meu lado do balcão isso tem um nome: um sistema calibrado para não desagradar não consegue pregar a Lei.

Lutero descreve o ofício da Lei nos Artigos de Esmalcalde com uma imagem que ninguém esquece depois de ler: “Este é, pois, o raio de Deus, com o qual destrói de uma só vez tanto os pecadores manifestos como os falsos santos, e não permite que ninguém tenha razão, mas leva todos ao terror e ao desalento. Este é o martelo (como diz Jeremias): ‘Minha palavra é martelo que despedaça as rochas’.“

E na sequência aparece a distinção que resolve o problema: “Isto não é activa contritio, um pesar artificial, mas passiva contritio, a verdadeira dor de coração, o sofrer e sentir a morte.“

Contrição passiva. Isso, definitivamente, não é o tipo de coisa que eu produzo. É uma coisa que acontece comigo.

Agora repare na arquitetura de um chatbot. Ele só funciona por solicitação. Eu pergunto, ele responde. Nada chega antes de eu pedir, nada chega sem eu querer.

Aí alguém pode até argumentar: mas eu posso pedir. Posso escrever “seja 100% honesto comigo, me confronte, não me poupe”. E o modelo faz. Faz muito bem, inclusive.

Só que veja o que aconteceu: eu escolhi a hora, eu escolhi a intensidade, eu escolhi sobre qual questão queria ser confrontado e, portanto, eu escolhi todas as outras coisas que ficariam de fora. E se apertar demais, eu fecho a aba.

A acusação continua saindo de mim. É a mesma consciência de sempre, agora com uma ferramenta que articula frases melhor do que eu.

Não é disso que Lutero está falando. Quando ele chama a Lei de raio de Deus e de martelo que despedaça as rochas, ele está falando de uma palavra que é pregada, ou seja, que vem por alguém enviado, e que por isso não está sob o controle de quem ouve. O martelo está na mão de outro. Se sou eu que o empunho contra mim mesmo, já não é martelo. É obra minha.

Pense em Natã. Davi não abriu um aplicativo. Não pediu uma perspectiva externa sobre sua situação conjugal. Natã apareceu porque fora enviado, sem hora marcada, no palácio de um homem que tinha acabado de matar alguém para encobrir um adultério e que podia perfeitamente mandar matar mais um.

“Tu és o homem” (2Sm 12.7).

Um modelo produz essa frase de forma magnífica. Produz agora, se eu pedir, um sermão muito bem estruturado sobre esse texto bíblico. O que ele não pode é ser Natã.

A palavra que acusa não nasce dentro do acusado. Ela chega por alguém que foi mandado, na hora que o acusado não escolheu, dizendo o que ele não teria encomendado.

Porque o problema nunca esteve na sequência de palavras. Um modelo conhece a história de Davi e Natã e resume ela lindamente, até com uma bibliografia maravilhosa se você pedir.

O que falta é o envio. Falta o ofício. Falta o mandato.

E se o modelo não pode acusar, também não pode absolver. Não porque a absolvição exija a lista dos pecados (a própria Confissão de Augsburgo diz que enumerar todos não é necessário, e a absolvição do culto perdoa sem que ninguém nomeie nada). O problema é anterior: para receber o perdão, é preciso saber que se precisa dele. E é a Lei que produz esse saber. Uma máquina que nunca me acusa me deixa perdoado de nada, porque me deixa sem pecado nenhum de que me arrepender.

Falar sobre o perdão não é perdoar

Okamoto tem uma frase naquele ensaio que é valiosíssima para essa nssa reflexão. Ele está discutindo o que os ministros fazem, e escreve que eles não apenas falam sobre a graça e a salvação de Deus. Eles são chamados para transmitir a graça e oferecer a salvação. O ofício deles não é falar sobre o perdão de Deus. É perdoar pecados.

Falar sobre e fazer são coisas diferentes.

J. L. Austin, em Quando dizer é fazer, mostrou que existem frases que não descrevem absolutamente nada, mas que fazem alguma coisa acontecer. Por exemplo: “Eu prometo.” “Eu declaro aberta a sessão.”, essas frases não são verdadeiras nem falsas por si só, mas elas dão certo ou dão errado. E o que decide isso não é o conteúdo da frase, são as circunstâncias: quem fala, com que autoridade fala e para quem fala.

Mas a liturgia luterana já tinha resolvido isso muito tempo antes e com muito mais precisão. Abra a ordem da confissão e absolvição. O oficiante pergunta: é esta a vossa sincera confissão, que vos arrependeis verdadeiramente de vossos pecados, que credes em Jesus Cristo?

A congregação responde: Sim.

E então: “Em virtude desta vossa confissão, na qualidade de ministro da Palavra, chamado e ordenado, vos anuncio a graça de Deus, e da parte e por ordem de Jesus Cristo, meu Senhor, vos perdoo todos os vossos pecados, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.“

Agora observe. Em virtude desta vossa confissão: houve confissão. Na qualidade de ministro da Palavra: existe um ofício. Chamado e ordenado: houve chamado e houve ordenação. Da parte e por ordem de Jesus Cristo: existe mandato, e o mandato não é do pastor.

Nada disso é penduricalho – para usar o mesmo termo que já usei anteriormente. Cada cláusula está ali dizendo, em voz alta e na frente de todo mundo, por que aquele ato funciona. E a Confissão de Augsburgo é bastante direta e reta no artigo XIV: “sem um chamado regular, ninguém deve ensinar nem pregar nem administrar os sacramentos publicamente na igreja“.

Um modelo produz aquela frase inteirinha. Com uma pontuação impecável, em três idiomas, e ainda pergunta se você quer uma versão mais curta.

O que ele não pode é fazer o ato.

E aqui a distinção mais útil do ensaio de Okamoto. Ele escreve em 2006, dentro de um problema completamente diferente que estava acontecendo dentro da LCMS. Mas ele argumenta algo bastante útil pra nossa discussão: “aptidão é uma categoria necessária, porque quem serve no ofício precisa mesmo ter qualidades e capacidades, precisa ser “apto para ensinar”, como diz Paulo. Só que aptidão não pode ser a categoria principal. “Tais atos exigem não apenas certa aptidão, mas também uma autorização divina, que é concedida ao homem quando ele é chamado e ordenado para o ofício.“

Leia isso, de novo, mas pensando num modelo de linguagem.

Conhecimento? Tem, e muito. Mais do que eu e você e sobre praticamente tudo. Habilidade retórica? A própria reportagem cita um estudo de Oxford em que a IA saiu mais persuasiva do que campeões de debate. Sabedoria para aplicar? Discutível, mas melhorando rápido.

Autoridade? Zero. E não é uma questão de tempo. Não existe uma versão futura do modelo que vá ter mais.

Uma IA é aptidão em estado puro, sem nenhuma autoridade.

A reportagem até observa, quase de passagem, que poucos fiéis querem chatbots presidindo casamentos, funerais ou batismos, e trata isso como uma preferência estética que ainda vai passar. As pessoas ainda gostam do “toque humano”, e tal.

Mas definitivamente isso não é gosto. É a percepção correta de que ali não há nada a presidir. Há algo a ser feito, e essa máquina não pode fazer.

E se for só um canal?

Antes que alguém levante a mão: eu escolhi o adversário fácil até aqui. Ninguém sério vai propor que o chatbot seja o pastor. A proposta realista é outra, e é bem mais difícil.

E se a máquina for só um canal? Se o pastor pregar e o modelo apenas transmitir, traduzir, resumir, distribuir? Isso a gente já faz. Muitos sermões, por aí, estão sendo gravados, cultos sendo transmitidos e mensagens nos grupos do Whatsapp sendo enviadas.

Quando a máquina transporta uma palavra que um ministro chamado pregou, ela está fazendo o que se fazia com as cartas de Paulo, quando eram enviadas e chegavam aos seus destinatários. É o que a Hora Luterana faz no rádio há décadas aqui no Brasil, e ninguém entre nós nunca teve problema com isso. O sermão continua sendo um evento de alguém enviado. O que mudou foi o meio de transporte, não o remetente.

Mas o caso vira outro quando não há remetente.

O “modelo” perfeito!

Outro dia vi um colega dizendo que seria interessante criar uma espécie de modelo treinado nos sermões antigos do próprio pastor, capaz de produzir os próximos no mesmo estilo.

Para um segundinho e pensa sobre isso.

Se meus próximos sermões podem ser destilados dos meus sermões anteriores, então o sermão nunca foi um evento. Foi um estilo. Um padrão de frases. E um padrão de frases serve para qualquer domingo, qualquer congregação, qualquer texto… o que é outro jeito de dizer: pregar para ninguém, sobre nada.

Já escrevi aqui antes que a objeção do comentário bíblico é legítima e que a saída fácil não funciona. Quem corre para o Gibbs antes de ler Mateus com calma está tomando um atalho, e é o mesmo atalho. Não vou fingir agora que ferramenta antiga é santa e ferramenta nova é suspeita.

Mas essa espécie de “modelo de criação de sermões” não é uma ferramenta antiga com uma roupagem nova. Ela faz outra coisa.

O comentário nunca reivindicou pregar. O Dr. Gibbs escreveu para quem quisesse ler. Ele não foi enviado à Congregação São Lucas de Porto Alegre, não conhece ninguém aqui, e ele sabe disso. O que ele me oferece é a matéria-prima, e continua sendo eu quem fala no domingo. Eu, que fui chamado por essa congregação, para aquelas pessoas.

O “modelo perfeito” existe justamente para ocupar esse lugar. É o único propósito dele.

E ele faz isso de um jeito um tanto estranho, porque não substitui o pastor por outra pessoa. Substitui o pastor por uma imitação dele mesmo. Isso não soa nem como terceirização. Soa como eficiência acima de qualquer coisa.

Só que Romanos 10 perde o sentido: enviado por quem?

A congregação me chamou. Chamou uma pessoa, com nome e que foi instalada num domingo diante de todo mundo. Ninguém chamou o padrão estatístico das minhas frases antigas. Não existe rito de instalação para um modelo… e vamos combinar que não é por falta de criatividade litúrgica.

Para pregar, eu preciso primeiro ouvir

E tem uma outra coisa ainda.

Lutero descrevia a formação do teólogo em três movimentos: oratio, meditatio, tentatio. Repare que nenhum dos três é etapa de produção. Os três são etapas de recepção.

O preparo do sermão não é o custo administrativo de chegar ao produto. É o lugar onde o pregador é o primeiro ouvinte do texto que vai pregar. Onde eu passo a semana sendo acusado pela mesma Lei que vou anunciar e consolado pelo mesmo Evangelho.

O tal modelo me entrega uma palavra que eu nunca recebi. E palavra que eu não recebi eu não consigo entregar. Consigo, no máximo, encaminhar. Mas encaminhar é o que a máquina já faz… e se é isso que eu vou fazer no domingo, então eu virei o canal, e o canal virou a fonte. Desse jeito, parece que o pastor e a máquina simplesmente trocaram de lugar.

Ninguém consola quem não pode ser consolado

Volte àquela lista de Esmalcalde e olhe a última palavra: mutuum. Mútuo. Recíproco.

O colóquio é de mão dupla. Eu consolo o irmão como alguém que também precisa de consolo. Estou debaixo da mesma palavra que anuncio. Sou justo e pecador ao mesmo tempo, e quem me ouve sabe disso.

Agora, uma ressalva importante: o que dá eficácia à palavra não é a santidade nem o sofrimento de quem fala. A absolvição vale pela instituição e pelo mandato de Cristo, e vale mesmo quando é dita por um ministro indigno. Se dependesse do peso moral do pastor, ninguém dormiria em paz.

Mas há outra coisa em jogo, e ela é sobre mim, não sobre a palavra.

Eu não chamaria de preguiça o que a gente faz com essas máquinas. É uma troca racional, e eu faço essa troca todo dia.

A relação humana é cara. O irmão que me escuta às onze da noite vai lembrar disso na quinta-feira. Vai me olhar diferente no corredor da igreja. Pode me julgar, pode contar para alguém, pode simplesmente não ter paciência naquele dia. Eu me exponho, e a exposição não tem botão de desfazer nem opção de apagar a mensagem.

A máquina não cobra nada disso. Não lembra, não julga, não se cansa, não conta. E, principalmente, nunca vai precisar de mim.

Só que é justamente aí que a conta não fecha, porque o que eu cortei da relação humana não foi só o custo. Foi o irmão.

Quando ele me diz que Cristo morreu por mim, ele não está me dando a opinião dele. Está me entregando uma palavra que não é dele: a mesma que ele próprio vai precisar ouvir de mim na semana seguinte e é a mesma Palavra que já foi dita a ele por outra pessoa. É por isso que Lutero pôde listar a conversa entre irmãos ao lado do batismo e da Ceia. Não porque irmãos sejam sábios, mas porque a mesma Palavra está circulando ali.

A máquina produz a mesma frase. Só que ela não a recebeu de ninguém, não a deve a ninguém, e não vai precisar dela nunca.

A ameaça é outra, e talvez já tenha entrado em nosso meio

Deixei para o final a parte mais desconfortável, porque é a razão pela qual eu quis escrever esse artigo.

E, antes de mais nada, quero repetir o que disse em outro artigo que escrevi pra esse site: pastor que usa a ferramenta para organizar agenda, transcrever reunião e adiantar tarefa administrativa está fazendo boa mordomia do tempo dele. Não é disso que estou falando.

O problema é outro. Se a pergunta “a IA vai substituir o pastor?” é sequer formulável (e ela é, tanto que a Economist escreveu uma reportagem inteira em cima dela), alguma coisa já aconteceu antes de a IA chegar.

Essa pergunta só existe porque alguém, em algum momento, reduziu o ministério a um conjunto de entregas.

A Confissão de Augsburgo, no artigo VII, define igreja assim: “a congregação de todos os crentes, entre os quais o evangelho é pregado puramente e os santos sacramentos são administrados de acordo com esse evangelho“.

Duas coisas: pregação e sacramentos. Ministério não é produção de conteúdo religioso relevante.

E aqui, querido leitor, eu preciso ser o mais honesto e verdadeiro possível sobre a minha própria profissão. Quanto do que eu chamo de ministério e do que muitos de nós, pastores, chamamos de ministério é, na prática, produção de conteúdo? Sermão, estudo, post para o Instagram, devocional, mensagem no grupo, roteiro do culto, arte para o story. Se o ministério é isso, a IA não é concorrente. É sucessora. E ganha, e ganha rápido.

E agora volte comigo ao “modelo perfeito”. Lá atrás eu tratei ele como problema de envio, e é. Mas ele é outra coisa também.

O modelo não é o problema. Ele é o sintoma. Ele só é possível porque alguém já operava com uma definição pobre de sermão: um conteúdo correto, um estilo reconhecível e uma aplicação prática. Se sermão é isso, então sermão é um texto… e todo texto é reproduzível. O modelo não está fraudando nada. Está fazendo exatamente aquilo que a definição permite.

Eu gosto muito da definição de pregação que é usada no Concordia Seminary, de St. Louis: “A pregação é a proclamação pública e autorizada da fé, normatizada e guiada pelas Escrituras, centrada no evangelho de Jesus Cristo para perdão, vida e salvação, em benefício dos ouvintes e de sua relação com Deus e com o próximo.“

Se a pregação é isso, então o texto do sermão nunca foi o sermão. É o registro dele. Do mesmo jeito que a partitura não é o concerto e a receita não é o almoço.

E é por isso que eu posso ler um sermão de Lutero com proveito enorme e mesmo assim não ter sido “pregado” por ele. Aquele sermão aconteceu em Wittenberg, num domingo, para gente que estava com medo de coisas específicas. O que chega até mim é a transcrição de um acontecimento do qual eu não participei.

Um modelo pode até saber quem está na terceira fileira… é só alguém alimentar o sistema de cadastro da congregação. O que ele não pode é ser o pastor daquela pessoa. Não pode ter batizado o filho dela, não pode ter enterrado o pai dela, não vai estar na porta da igreja quando ela sair chorando.

E eu, como pastor, deveria estar.

O que significa que a resposta certa a essa reportagem não é ansiedade e, definitivamente, não é criar um novo chatbot luterano.

É pregar no domingo.

Não, a IA não vai substituir o pastor.

Ela vai revelar o que a gente andou achando que o pastor era.

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1 Comentário

  • Alçamar

    Excelente conteúdo…

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