Falar bem não salva ninguém

Eu já ouvi a história de um pastor que, logo depois de se formar, resolveu ir ao púlpito sem nenhum preparo. Sem papel, sem anotação. Falou por alguns minutos e, pouco antes de terminar, disse aos ouvintes: “eu acho que vocês não esperavam nada de mim quando subi aqui sem nenhuma anotação. Mas o Espírito Santo falava comigo enquanto eu estava aqui no púlpito e eu só repetia para vocês.”

Quero falar sobre isso. Porque você já deve ter ouvido uma frase parecida: “eu não me preocupo com técnica, eu prego a Palavra”.

Isso pode soar até bonitinho. E, num certo sentido, é correto: quem de fato faz o trabalho é a Palavra, não o pregador. Mas repare que essa postura assume que existe a opção de não usar técnica nenhuma. Que dá para simplesmente abrir a boca e deixar a Palavra sair limpinha, sem passar por escolha humana nenhuma no caminho.

Mas isso não existe. E eu explico.

A igreja não escolhe se usa retórica

Toda vez que a Palavra é pregada, ensinada ou explicada em público, ela já toma alguma forma. Alguém escolheu por onde começar, que palavra usar e qual deixar de fora, o tom, o ritmo, onde fazer uma pausa.

Ninguém decide não decidir nada disso. Quem acha que não escolheu apenas escolheu sem perceber. O pastor que fala em tom monótono escolheu um tom. O que lê o manuscrito de cabeça baixa escolheu uma forma de entrega. O aviso do mural, o texto no Instagram da congregação, o silêncio depois da leitura do Evangelho… tudo isso comunica.

O Dr. Glenn Nielsen resume isso numa frase que eu acho interessantíssima: “Mais cedo ou mais tarde o pastor precisa falar ao povo, e quando ele fala, a retórica acontece.”

Não tem saída. O ponto é se a igreja vai usá-la no automático ou conscientemente.

Uma briga que já tem uns mil e seiscentos anos

Vale saber que essa conversa não começou com a gente. No século IV, Jerônimo fazia aquela pergunta irritada e maravilhosa: “O que tem Horácio a ver com os Salmos, Virgílio com os Evangelhos, Cícero com o apóstolo?”

Agostinho, que era professor de retórica antes de ser bispo, respondeu juntando as duas coisas sem culpa nenhuma: a teologia fornece o conteúdo, a retórica fornece o “como”. Afinal, quem ensina heresia comunica muito bem, e é justamente por isso que convence gente a abandonar a fé. Por isso, argumenta ele, a igreja também precisa obter “a faculdade da eloquência […] para o uso dos bons a serviço da verdade”.

Deu certo por uns bons séculos, até o casamento azedar no século XX com Karl Barth: se a Palavra vem inteiramente de fora da possibilidade humana, então considerações retóricas estão excluídas por definição. Ele levava isso tão a sério que se recusava a usar introdução de sermão.

Eu até acho a posição dele admirável, porque é séria e é consistente. Mas ela desaba num lugar bem prático: quando os seguidores dele tentaram ser fiéis a essa recusa, os sermões ficaram sem a habilidade necessária para engajar quem ouvia. O tédio anulou o processo de escuta. Evitar a retórica tornou-se um obstáculo à audição da Palavra.

Pense no que isso significa: a recusa da retórica, feita em nome da pureza da Palavra, acabou atrapalhando a audição da Palavra.

(Essa história tem outros capítulos que eu não vou desenvolver aqui: a Nova Homilética, a virada em direção ao ouvinte, a contribuição enorme da pregação afro-americana. Pretendo tratar disso com calma num próximo artigo.)

Duas coisas que a Fórmula de Concórdia recusa

Agora, para ser bem luterano, quero olhar para as nossas confissões… mais especificamente para a Fórmula de Concórdia, no segundo artigo, que trata do livre-arbítrio. Vale reparar que esse artigo recusa duas coisas:

A primeira está no parágrafo 7: “Cremos que, em coisas espirituais e divinas, o intelecto, o coração e a vontade do ser humano irregenerado, com suas forças naturais, absolutamente nada podem entender, crer, aceitar, pensar, querer, começar, realizar, fazer, operar ou cooperar” (Declaração Sólida II, §7, p. 586). E ela reforça logo em seguida que não restou no ser humano “uma centelhazinha sequer das forças espirituais” com a qual ele pudesse preparar-se para a graça ou aceitá-la (§7, p. 586).

A fé é obra do Espírito Santo. Ponto.

Se a conversa parasse aí, no entanto, a conclusão seria simples: se nada do que eu faço contribui, então tanto faz como eu falo.

Só que a Fórmula não para aí. Ela recusa também os que chama de entusiastas: “Os antigos e os novos entusiastas […] ensinaram que Deus converte as pessoas por meio de seu Espírito e as conduz ao conhecimento salvífico de Cristo sem qualquer meio ou instrumento do âmbito da criação, ou seja, sem a pregação e a audição externas da palavra de Deus” (§4, p. 586).

E essa segunda recusa é tão firme quanto a primeira. Lá adiante, na lista dos erros condenados, ela diz que “devemos reprovar com toda a seriedade e zelo, e de modo nenhum tolerar na igreja de Deus, os entusiastas, os quais imaginam que Deus atrai as pessoas para si, as ilumina, justifica e salva sem quaisquer meios, sem que se ouça a palavra divina e sem o uso dos santos sacramentos” (§80, p. 602).

Junte as duas e você tem o coração do que quero argumentar neste artigo. Deus não converte ninguém pela habilidade humana, e também não converte ninguém por fora dos meios que ele mesmo escolheu. O Espírito trabalha através da pregação, da água, do pão e do vinho. Coisas externas.

A Fórmula diz ainda uma coisa interessante: “A pessoa ainda não convertida a Deus e irregenerada pode ouvir e ler essa palavra exteriormente, pois nessas coisas externas […] mesmo depois da queda o ser humano ainda possui, até certo ponto, livre-arbítrio, de modo que pode ir à igreja e dar ou não ouvidos à pregação” (§53, p. 596).

Pare um segundo nisso.

Se ela pode decidir prestar atenção, então a forma como o sermão é entregue não é irrelevante. Isso não faz da retórica uma causa da fé. Faz dela parte do cenário concreto em que a Palavra é ouvida ou ignorada.

E agora vem o pedaço que eu acho o mais desconfortável de todos.

A FC sabia que essa doutrina ia ser usada como desculpa, e sai na frente. Depois de listar as orações em que os santos pedem a Deus justamente aquilo que não conseguem por si mesmos, ela avisa: “Essas orações e passagens que revelam a nossa ignorância e incapacidade não foram escritas para tornar-nos indolentes e preguiçosos em matéria de ler, ouvir e meditar a palavra de Deus” (§15, p. 588).

E, mais adiante, ao resumir toda a doutrina, insiste que ela “nos admoesta no sentido de que essa graça em nós não seja em vão, mas que nos exercitemos diligentemente, considerando quão grave é o pecado de impedir essas operações do Espírito Santo e a elas resistir” (§72, p. 600).

Ou seja: os confessores viram chegando o raciocínio contrário: já que tudo é obra do Espírito, não preciso me esforçar em nada. E eles cortaram isso por escrito.

Sejamos honestos. Isso é exatamente a frase do começo deste texto, com quatrocentos e cinquenta anos de antecedência.

“Eu não me preocupo com técnica, eu prego a Palavra” pode ser humildade. Mas também pode ser preguiça vestida com roupa de confessionalidade. E os nossos confessores viram isso muito antes de nós.

A distinção que resolve ‘quase’ tudo

Aqui o Dr. Nielsen entra de novo, com a ferramenta mais útil do artigo dele, que se chama No Longer Dinosaurs: uma charge de 1997 em que dinossauros batem em máquinas de escrever numa redação de jornal enquanto o editor comenta, tranquilo, que computador é modinha passageira.

O pastor está espremido entre duas coisas. Ele não quer ser modinha, mas também não quer ser dinossauro. E o critério que pesa sobre ele quando sobe ao púlpito, diante de gente massageada por mensagens multimídia a semana inteira, é aquele critério humilhante: “nossa… que chato!”.

A distinção que ele oferece vale muito mesmo! É simples assim: uma coisa são os meios da graça; outra coisa é o uso dos meios da graça. Os meios da graça não admitem cooperação humana nenhuma. Se o sermão foi bom ou ruim, se o pastor dormiu mal, se a semana foi de emergência atrás de emergência… quando o Evangelho é proclamado, o Espírito está agindo. Todo o crédito é de Deus. Mas o uso desses meios envolve gente. Alguém prega. Alguém escuta. Alguém escreve o boletim, marca a visita, decide o que dizer no velório. E é aí que entra a habilidade de comunicar.

Repare no que essa distinção faz. Ela impede duas bobagens ao mesmo tempo:

A primeira é achar que são as nossas técnicas, o nosso planejamento, o nosso jeito simpático, a nossa capacidade de persuadir, as nossas boas intenções, as nossas estratégias que fazem a diferença, que fazem a igreja crescer. Isso invade a eficácia dos meios da graça. É invasão de território divino.

Mas a segunda é igualmente perigosa, e talvez seja a nossa preferida: é jogar o uso dos meios da graça contra os meios da graça. Assim que se estabelece que o crescimento da igreja acontece somente pelos meios da graça, o diabo já cochicha no ouvido: “Relaxa… vai com calma. Já que a salvação ésomente pela graça, para que se dar ao trabalho de pensar em técnicas e estratégias, em planejamento e programas para levar o Evangelho adiante? Para que gastar tempo tentando encontrar as pessoas onde elas estão? O Espírito Santo faz tudo, operando por meio da Palavra e do Sacramento. Você não precisa fazer nada… Ou só faz do jeito mais fácil, ou do jeito que a gente sempre fez.

Eu li isso e fiquei incomodado por uns dois dias. Porque “do jeito que a gente sempre fez” é uma frase que eu conheço bem, e que raramente é dita como confissão de preguiça. Ela costuma ser dita como se fosse fidelidade.

Comunicar bem, então, não é um jeito disfarçado de ativar a graça. É mordomia: cuidar bem de uma coisa preciosa que foi confiada a você.

Uma comunicação ruim não deixa a Palavra sem poder, mas pode deixar a igreja descuidada no uso da Palavra. Um sermão confuso, um tom áspero, uma nota pública mal redigida: nada disso anula o Evangelho, mas coloca obstáculo desnecessário no caminho de quem está tentando ouvir.

Você, pregador, ja deve ter percebido que quando o sermão está mal comunicado, as pessoas não param de fazer outras coisas. Releem o boletim. Pensam no almoço. Olham pela janela. Ninguém tomou a decisão consciente de rejeitar a Palavra naquele momento. Só aconteceu de a atenção ter ido embora.

Luter e as duas justiças

Existe uma segunda base teológica para tudo isso, e ela vem de uma distinção de Lutero que, na minha opinião, é uma das coisas mais libertadoras que ele escreveu. Robert Kolb e Charles Arand a trabalham em The Genius of Luther’s Theology. Ali eles argumentam que existem duas justiças, e elas funcionam de maneiras completamente diferentes.

Diante de Deus, o cristão vive de forma passiva. Ele recebe. A justiça de Cristo é dada, não conquistada. A ponte que Deus construiu na encarnação vai numa direção só: para baixo, direto no fundo do nosso pecado.

Diante do próximo, é o contrário. Aí a vida é ativa. Deus criou o ser humano à sua imagem para trabalhar, falar, ensinar, cuidar, servir, construir.

E note uma coisa que Kolb e Arand fazem questão de sublinhar: quanto à qualidade do trabalho em si, não há diferença entre o que um cristão faz e o que um descrente faz. O carpinteiro cristão não serra a madeira de um jeito santificado. A diferença é que o cristão sabe de onde vem o chamado e para quem o trabalho serve.

Eles chegam a lembrar que Lutero admitia que os ímpios às vezes “cumprem a segunda tábua do Decálogo tão brilhantemente que às vezes chegam a parecer mais santos que os cristãos”.

O que significa, na prática, que um comunicador descrente pode ser tecnicamente melhor que você. E isso não é escândalo teológico nenhum. É a doutrina da criação funcionando.

Lutero tinha ainda uma imagem ótima para a vida ativa. Ele chamava as criaturas de máscaras de Deus, e as descrevia como “as mãos, os canais e os meios pelos quais Deus concede todas as bênçãos”. E chegava a dizer que as suas ferramentas gritam com você: “Olhe para as suas ferramentas: para a sua agulha ou dedal, o seu barril de cerveja, as suas mercadorias, a sua balança, a sua régua ou medida.” Todas elas estão clamando: “Amigo, use-me no seu trato com o próximo do mesmo modo como você quer que o seu próximo use os bens dele no trato com você.”

Vamos combinar que isso vale para o microfone e para o púlpito também?

Aí está o lugar da comunicação. Ela não se justifica porque “funciona” para produzir resultado espiritual. Ela se justifica porque amar o próximo exige prestar atenção em como as palavras são de fato ouvidas, recebidas, mal-entendidas e lembradas.

E isso não vale só para o púlpito: uma congregação que comunica bem sobre dinheiro, calendário e segurança das crianças não está apenas “sendo profissional”, está praticando justiça ativa.

Kolb e Arand usam uma analogia que ajuda a manter as proporções: a justiça humana funciona como o socorrista que chega no acidente. O objetivo dele, escrevem, é “manter os pacientes vivos até que possam ser levados à sala de emergência do hospital, onde suas feridas podem ser tratadas e finalmente curadas”.

Comunicação bem-feita é isso. Ela estabiliza. Ela não cura.

Mas estabilizar não é pouca coisa quando alguém está sangrando.

Quem é que está sentado ali?

Todo curso de comunicação começa com o mesmo princípio: quem você acha que é o seu público determina o que e como você fala com ele. Nielsen pega esse princípio e faz a pergunta: quando o pastor olha para o povo durante o sermão, quem ele vê? Não sociologicamente. Teologicamente. E a resposta é bem específica: ele vê o povo batizado de Deus, gente que é santa e pecadora ao mesmo tempo, lutando para viver a fé na tensão entre a carne e o Espírito.

Por exemplo: um texto em que Jesus enfrenta os fariseus não autoriza você a dizer ao seu povo que eles são os fariseus. Eles têm a inclinação pecaminosa de fazer o que os fariseus fizeram, sim, mas não são inimigos incrédulos de Cristo. São batizados que estão ali.

Repare que não é uma questão de ser gentil, é uma questão de verdade teológica: essas pessoas chegaram cansadas, mas não são desertoras nem inimigas. O Espírito já vem trabalhando na vida delas há tempo.

Nielsen traz aqui uma frase de Walther que devia estar pregada na parede de todo gabinete: “Você precisa colocar-se no lugar dos seus ouvintes e perguntar o que o alarmaria e o deixaria em dúvida.”

Ver o ouvinte como santo e pecador também empurra o pastor a vê-lo como pessoa inteira, e não como um cérebro que precisa de mais informação. Thomas Troeger e Edward Everding, no livro So That All Might Know, defendem que o ser humano conhece de várias maneiras ao mesmo tempo: sentindo, pensando, imaginando e fazendo.

Os quatro aparecem toda semana na sua congregação, ainda que você nunca tenha reparado. Troeger e Everding chegam a escrever os pedidos que cada um faria: “Desenhe um quadro que me ajude a ver o que você está dizendo.” “Esclareça o seu argumento para que eu possa descobrir se concordo com você.” “Aqueça o meu coração, e eu sentirei a verdade.” E há ainda o quarto, que sai do culto perguntando o que fazer com aquilo na segunda-feira.

Nenhum dos quatro está errado.

E veja o que acontece quando a forma trai o conteúdo: um pregador fala do amor de Deus com voz dura, e um menino se vira para o pai e pergunta: “Por que aquele homem está com tanta raiva?” O conteúdo estava correto. A forma disse o contrário. E o menino acreditou na forma.

Isso fala muito sobre a forma na entrega do sermão. Se a Lei acusa e o Evangelho perdoa, a entrega de uma não pode ter a mesma cara da outra. Pregar o “alegrai-vos no Senhor” não pode soar igual à parte do sermão que trata da morte do irmão de Marta. Se soa igual, alguma coisa está errada. E não é no conteúdo.

Três coisas que a igreja precisa recusar

Até aqui pode parecer que estou defendendo a comunicação sem ressalva nenhuma. Não estou. A igreja pode e deve aprender com a retórica e com a teoria da comunicação, mas precisa receber tudo isso com muita reflexão e cuidado, porque comunicação é um dom criado… e, como todo dom criado, está marcada pelo pecado.

O perigo mais óbvio é o de fazer as pessoas “decidirem por Deus”. Esse é real. Mas não é o único. Existem pelo menos outros três e vamos falar sobre eles.

Primeiro: a ideia de que o comunicador domina o resultado

Boa parte da teoria da comunicação parte do princípio de que o orador competente controla o desfecho: se ele conhece o público, enquadra a mensagem direito e escolhe a técnica certa, ele obtém o que quer.

Nielsen mostra que essa suposição é apropriada rápido demais pela pregação, e usa David Buttrick como exemplo: a ideia de que o sermão se forma na consciência humana do mesmo jeito em todas as pessoas, e que por isso dá para desenvolver um processo que faz a linguagem trabalhar na mente dos ouvintes.

Repare de onde vem o ataque à eficácia da Palavra aqui. Não vem do ouvinte. Vem do pregador, cuja habilidade retórica passa a ser necessária para tornar a Palavra eficaz na vida de quem ouve.

Teologicamente, isso é inaceitável por dois motivos. Trata o ouvinte como objeto a ser manejado. E cria um peso falso e cruel sobre o pregador: se a resposta esperada não veio, a culpa é da técnica. Ou seja, é sua.

“Luteranamente” falando, entendemos de forma bem diferente. Você, pregador, é responsável por uma proclamação fiel e bem-feita, não por produzir o resultado espiritual. Isso é, ao mesmo tempo, um aviso e um conforto.

O aviso: quando o sermão dá certo, o crédito não é seu. As pessoas vão elogiar e agradecer; receba com gratidão, mas sabendo quem foi que deu os dons naquele dia. O conforto é o outro lado da mesma moeda: você não é responsável pela mudança espiritual na vida dos seus ouvintes. Esse fardo não é seu para carregar.

Lutero passou boa parte de 1530 sem pregar. “Ele simplesmente ficou totalmente desanimado, apesar do que havia aconselhado aos outros”, escreve Fred Meuser. Havia avisado à congregação, várias vezes, que pararia se não visse mais fruto do Evangelho entre eles. E parou mesmo.

Ou seja: até o Lutero caiu nessa. A tentação de medir o próprio ministério pelo resultado visível não é fraqueza de pastor novato. É ocupacional.

Segundo: a ideia de que o ouvinte é soberano

A partir de 1971, com Fred Craddock, a homilética deu uma virada em direção ao ouvinte. Boa parte dela é correção necessária: a igreja precisava mesmo ouvir que sermões são ouvidos por pessoas reais, e que assumir que elas estão prestando atenção é perigoso e quase sempre falso.

Mas essa correção vira um problema bem sério quando o ouvinte passa a ter autoridade para completar ou determinar o sentido do sermão. Thomas Long descreve o sermão contemporâneo como menos denso teologicamente, mais aberto e mais “impressionista”, “convidando o ouvinte a entrar no jogo e a juntar-se ao pregador na criação do sentido”.

Repare na expressão: criação do sentido. Compartilhada.

E aí a coisa se inverte. Se o sentido final é produzido por quem escuta, a congregação passa a ser a norma da proclamação. Mas a Palavra de Deus se dirige ao ouvinte de fora do ouvinte: ela julga, mata, vivifica, perdoa e cria aquilo que ordena. A congregação deve ser amada e endereçada concretamente, mas não pode virar o critério do que a Palavra significa.

Barth, aqui, teria respondido com um NÃO em letras garrafais. E eu diria que ele estaria com bastante razão.

Esse é outro fio que pretendo puxar no próximo artigo.

Terceiro: a análise de público que reduz gente a categoria

A prática retórica costuma começar identificando um público-alvo: necessidades, medos, idade, classe, instinto político, gatilho emocional. Usado com cuidado, isso pode ser um ato de atenção pastoral. O problema, no entanto, começa quando a atenção vira rotulagem. Troeger e Everding alertam justamente contra isso, porque esse tipo de etiqueta apaga a humanidade complexa da congregação.

O ouvinte vira “o jovem adulto”. Vira “o conservador”. Vira “o visitante”. Vira “o membro chateado”, “o aprendiz visual”.

E aí acontecem duas coisas ruins de uma vez.

A primeira é que isso fragmenta a pessoa que Deus criou inteira. Lembra dos quatro modos de conhecer? Reduzir alguém a uma etiqueta é escolher um pedaço da pessoa e jogar o resto fora.

A segunda é pior, porque abre a porta para a manipulação. Basta isolar uma capacidade humana só (o medo, a culpa, o desejo de pertencer) e usá-la para empurrar a pessoa na direção de uma resposta já decidida de antemão.

Isso não é servir o próximo. É usar o próximo. E dá para fazer isso citando a Bíblia do começo ao fim. Alias, tem muita gente fazendo isso por aí.

Retórica como amor ao próximo

Por tudo isso, acho que a igreja não deveria entender a retórica como a arte de vencer. Ela é, para nós, uma forma disciplinada de amor ao próximo debaixo da Palavra. A tarefa não é deixar o Evangelho impressionante ou vendável. É remover obscuridade desnecessária, prestar atenção no ouvinte e entregar a fala da igreja de um jeito verdadeiro, adequado e claro.

E isso, na prática, é bem menos glamouroso do que parece.

É escolher palavras que as pessoas realmente entendem. É estruturar o sermão de modo que dê para acompanhar sem se perder. É usar imagens que nascem do texto, e não do desejo de entreter. É falar pastoralmente em vez de asperamente. É ensaiar a entrega, sim, ensaiar… porque preparação e prática são parte do trabalho!

Nada disso é técnica de crescimento de igreja. É cuidado com gente.

A retórica é penúltima

A razão mais profunda para se importar com isso tudo não é eficácia, no sentido moderno da palavra. É fidelidade!

Deus escolheu lidar com seres humanos por meio de palavras externas, e seres humanos vivem de palavras, gestos e hábitos. A igreja não tem como escapar da retórica: quando alguém é recebido na porta, quando um velório é anunciado, quando um enlutado é consolado… já está tudo acontecendo, quer a gente pense nisso ou não.

O querido Prof. Dr. Nielsen tem uma formulação que eu roubei para o título desta seção: “Ainda que a responsabilidade última pela mudança espiritual seja do Evangelho pelo Espírito Santo, o pregador tem responsabilidade penúltima pelo uso dos meios da graça, para que o sermão seja ouvido, experimentado e lembrado.”

Penúltima. Não última, e não irrelevante. Penúltima.

Robert Kolb descreve a nossa posição assim: “Funcionamos como cooperadores de Deus (1Co 3.9) na tensão entre uma doutrina da criação que coloca em nossas mãos todas as ferramentas da comunicação, da pesquisa e da percepção humanas, de um lado, e, de outro, a nossa confiança de que só Deus opera conversão e salvação por meio da sua Palavra, e frequentemente de maneiras que desafiam a nossa explicação.”

Viver nessa tensão é o trabalho, e ela nos dá duas coisas ao mesmo tempo.

Liberdade, porque a igreja não precisa carregar o peso impossível de tornar a Palavra eficaz. Esse peso é de Deus, e foi colocado nos ombros de quem foi à cruz exatamente para isso.

Disciplina, porque a graça não é esconderijo. Preguiça, confusão e aspereza não podem se esconder atrás da doutrina da justificação. A graça não desculpa comunicação ruim. Ela liberta a igreja para comunicar sem manipulação e sem aquela performance ansiosa de quem está tentando se justificar pelo próprio talento.

Nós, diz Nielsen, “buscamos a excelência na proclamação da Palavra de Deus, não para a nossa própria glória, mas para a de Cristo”. E ele acrescenta: “nem sempre daremos o nosso melhor. Nós também precisamos daquele perdão precioso de Cristo enquanto servimos no ofício pastoral”. Você e eu passamos por muitos, muitos domingos ruins, sermões que não funcionaram, semanas em que não deu tempo. Mas Cristo ressuscitou para nos dar exatamente isso.

A retórica é penúltima. Ela é necessária, é perigosa e é útil. Fica debaixo da Palavra, a serviço do próximo, para o uso fiel dos meios da graça.

“Eu não me preocupo com técnica, eu prego a Palavra”? Acho que podemos reformular: É justamente porque é a Palavra, e não a minha habilidade, que salva… eu estou livre para cuidar da forma sem achar que a salvação de alguém depende disso.

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