Nota: uma versão desse texto apareceu inicialmente em um projeto pessoal que tinha há alguns anos.
Pecar é pecado. Pode parecer óbvio, mas nem sempre é. Por isso, ao iniciar esse texto, é necessário dizer: pecar é pecado.
Desde o início história da humanidade—bem como na história da Igreja Cristã—pessoas tentaram convencer tanto elas mesmas quanto outras que algum tipo de pecado não era, de fato, pecado. Pelo menos, não tão pecado assim. Exemplos abundam. As Cruzadas feitas pela igreja a fim de “converter povos não-cristãos” oferecem um simples mas gritante exemplo desse tipo de pensamento.
Hoje em dia isso ainda acontece. Pessoas continuam tentando convencer a elas mesmas e outras pessoas ao seu redor que algum tipo de pecado não é pecado.
Hoje os exemplos também são abundantes. De coisas corriqueiras como “não é pecado fofocar” ou “não é pecado mentir” para outras mais sérias como “não é pecado juntar riquezas na minha conta do banco enquanto conheço pessoas passando necessidades” ou “não é pecado usar o meu corpo da forma que eu quero ao invés de usar ele com o propósito dado por Deus,” pessoas continuam convencendo a si mesmas e outras que “está tudo bem pecar”. Afinal de contas, alguns pecados não são “tão” pecado assim.
No entanto, essa forma de agir e pensar está completamente errada.
Pecar é pecado. Pecar sempre foi pecado. E pecar sempre será pecado.
Tudo aquilo que é contrário a vontade de Deus revelada em Cristo, pelos apóstolos e pelos profetas, e que foi relatada nas Escrituras Sagradas, configura e de fato é pecado. Não importa quão bem feito é o argumento ou quão boa é a intenção por trás da justificativa. Pecado é pecado. Ponto final.
Infelizmente, eu tenho identificado essa postura preocupante em meio a teólogos e pastores da Igreja Cristã atualmente.
Estou me referindo especificamente a expressão “pecar pelo evangelho”. Essa expressão e postura teológica não apenas tem se tornado comum entre teólogos e pastores como também tem se tornado uma postura digna de louvor pelo suposto cuidado pastoral daquele que assume essa postura. Tal falso ensino está tão normalizado que teólogos e pastores da Igreja não percebem que pecar pelo evangelho não é algo bom mas sim algo ruim. Afinal de contas, pecar pelo evangelho ainda é pecar—isto é, falhar em corretamente aplicar a correta distinção entre Lei e Evangelho no cuidado pastoral confiado por Cristo aos ministros da Igreja.
Pecar pelo evangelho é um reflexo de um problema sério especialmente entre teólogos e pastores da tradição luterana: o reducionismo da distinção entre Lei e Evangelho. Tal reducionismo ocorre quando a lei de Deus é reduzida a um aspecto negativo, comumente entendida como se a lei só tivesse a função de condenar e apontar os pecados das criaturas humanas. Embora esse entendimento esteja correto em nossa relação à Deus no que se refere à salvação—isto é, não podemos ser salvos mediante a lei porque ela não nos salva mas sim sempre nos acusa (lex semper aaccusat)—, esse entendimento é problemático quando nos referimos ao ensinamento da palavra de Deus como um todo para a sua criação.
Mas, o que significa “pecar pelo evangelho”?
Desde o início da Igreja Cristã, cristãos reconheceram a complexidade e o desafio de interpretar corretamente as Escrituras Sagradas. Esse desafio continua presente na Igreja. Felizmente, muitos teólogos e pastores sabiamente temem falhar no ensino correto da palavra de Deus. Diante disso, eles buscam formas de evitar erros já vistos na história da Igreja.
Um erro grave que assombra a Igreja Cristã desde séculos atrás é enfatizar a lei de Deus acima do evangelho ao ponto que a lei é apresentada como uma forma por meio da qual pecadores podem ser justificados diante de Deus. Isso, no entanto, é errado. Pecadores são justificados não por obras ou méritos, mas por graça pela fé em Cristo. Isso é a mensagem do evangelho.
Diante do perigo de pecar ao ensinar ou interpretar a palavra de Deus, surge a postura que afirma ser preferível pecar pelo evangelho a fim de evitar o erro de não aplicar a lei corretamente.
Eu reconheço que a maioria os teólogos e pastores que adotam a postura de “pecar pelo evangelho” não fazem isso de bom grado como se fosse o correto a ser feito. Eu acredito que ninguém quer falhar em sua missão de ensinar a palavra de Deus. Isso porque todos aqueles que são responsáveis por ensinar e pregar a palavra de Deus sabem do compromisso e responsabilidade de fazer isso da maneira correta.
No entanto, é inegável que existe atualmente uma tendência a se convencer que pecar não é pecado quando se trata de ensinar o evangelho. A verdade, porém, desmente esse pensamento. Pecar é pecado, mesmo quando o assunto é evangelho.
Eu já perdi as contas de quantas vezes eu ouvi colegas teólogos e pastores afirmando que “está tudo bem pecar pelo evangelho”. Desde quando eu estava no seminário eu ouço essa frase ser usada como se fosse a solução para situações difíceis do ministério pastoral ao ponto de se tornar parte de uma correta distinção entre lei e evangelho.
No entanto, pecar pelo evangelho é pecar contra a palavra de Deus. Isso porque pregar o evangelho sem a lei é anular o evangelho.
Se acreditamos e ensinamos que a palavra de Deus é lei e evangelho, então ensinar apenas um desses aspectos da palavra de Deus é conscientemente falhar em ensinar toda a palavra de Deus.
Eu entendo e simpatizo com o medo de teólogos e pastores de acabarem sendo “legalistas” e deixar algum espaço para que pessoas entendam que podem ser salvas e aceitas por Deus através da lei.
A solução não é pecar, nem mesmo quando o assunto é o evangelho de Deus. É necessário pedir que o Espírito de Deus dê sabedoria para pregar e ensinar a palavra de Deus como um todo, isto é, tanto lei quanto evangelho.
A solução para esse desafio é aperfeiçoar o entendimento e ensino de lei e evangelho, e NÃO deixar de pregar a lei de Deus.
Portanto, não peque pelo evangelho mas sim pregue e ensine corretamente lei e evangelho.
